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Foi-se a época em que homens raspavam a cabeça para esconder o cabelo crespo

Foi-se a época em que homens raspavam a cabeça para esconder o cabelo crespo

“Assumir um cabelo crespo ou cacheado não é simplesmente estético. É uma forma de protesto, de se assumir ainda mais preto!”

Conheça a história de Vagner que aos 27 anos entrou em uma corajosa jornada para redescobrir suas origens e assumir suas raízes. Ele de adeus à velha máquina de corte!

Cabelo crespo e a infância

Quantos negros de cabelo crespo que não usam o cabelo raspado você conheceu na sua infância e adolescência? Hoje pode até ser mais fácil encontrar homens com seus fios cacheados ou crespos expostos por aí. Devido a todo o movimento de empoderamento do negro nos últimos anos. Entretanto, é recorrente na vida dessas pessoas crescerem sem nem ao menos conhecerem a própria textura de cabelo… E não foi diferente com o Vagner: “É muito comum que nós, homens e meninos pretos, tenhamos o cabelo raspado desde criança.” relatou ele e continuou: “A gente já cresce com o cabelo raspadinho, na verdade, não sabemos nem como é o nosso cabelo.”
Já pensou passar a vida inteira sem ao menos conhecer o próprio cabelo? Algo que deveria ser tão natural, mas, na realidade de quem tem os fios crespos ou cacheados não é! Pois existem aos cruéis padrões de beleza impostos pela sociedade em que vivemos.

Cabelo crespo e representatividade


Vagner hoje tem 29 anos e relembra que a falta de representatividade de figuras de homens negros. Com seus cabelos a mostra, na mídia ou mesmo no convívio do dia a dia, o fazia acreditar que só havia uma maneira de usar o cabelo crespo, que não havia espaço para outras opções: “Vamos crescendo assim porque achamos que tem que ser desse jeito, porque não vemos na televisão ou em qualquer outro lugar homens e meninos negros com o cabelo grande ou mesmo com apenas dois dedinhos de comprimento. Não tem, não pode.”, contou ele, que além de jornalista, trabalha como analista de marketing.

Por essa falta de referências ao seu redor, Vagner nunca se questionou quando mais jovem porque as coisas tinham que ser daquele jeito: “Quando somos crianças, ainda existe a desculpa de que não podemos ter o cabelo grande porque é mais difícil de cuidar, por causa de piolho e tal.”, refletiu Vagner e completou: “Então, nunca nos questionamos sobre isso antes. Quando víamos outro menino ou homem negro era sempre com o cabelo raspado também.”

Cabelo crespo e empoderamento

Foi-se a época em que homens raspavam a cabeça para esconder o cabelo crespo

Para Vagner, uma questão foi determinante para que não apenas ele, mas milhares de outros homens passassem a deixar seus fios crespos crescerem: “o fato das mulheres começarem a assumir os seus cabelos naturais, seus cachos e seus blacks, ajudou muito para que nós, homens, começássemos a assumir os nossos cabelos também.”, afirmou.


Ou seja, segundo o jornalista, ver mulheres assumindo suas texturas de cabelo naturais foi inspirador para que meninos e homens deixassem de lado a máquina de corte e permitissem o crescimento dos seus cabelos.
Vagner disse que esse movimento de empoderamento do cabelo crespo e cacheado é tão forte e evidente que pode perceber que mesmo as marcas passaram a olhar para o público masculino: “Eu lembro que quando eu comecei a pensar em deixar o meu cabelo crescer e ia comprava algum produto para cabelo crespo ou cacheado, havia sempre mulheres na embalagem e hoje já têm homens estampando os rótulos desses produtos”, relembrou ele e concluiu: “não que faça alguma diferença entre o produto masculino e feminino, é só para que possamos entender como a questão da ascensão do autocuidado do homem preto chegou também aos olhos das marcas.”.

Situações como essa levaram Vagner a crer que estava acontecendo uma mudança de padrão em termos de comportamento da sociedade. “Percebi que havia um questionamento sobre a questão de ser um homem preto com o cabelo crespo.”
Ele ainda contou que fui muito impactado por seus amigos. Pois eles também estavam deixando o cabelo crescer: “Eu comecei a ficar curioso e pensei ‘como é que seria se eu deixasse o meu cabelo um pouco maior?’

Assumindo o cabelo crespo

Foi-se a época em que homens raspavam a cabeça para esconder o cabelo crespo

O jornalista contou que no começo estava muito inseguro de seguir com essa ideia. Pois havia passado toda a sua vida com o cabelo raspado: “Eu achava que eu ia ficar ridículo, feio, que não era para mim”.
Vagner teve vergonha de que as pessoas vissem o seu cabelo crespo natural. Isso porque o preconceito da sociedade em relação a esse tipo de cabelo sempre existiu. Portanto, é um preconceito enraizado em uma cultura racista.


Por esse motivo, mesmo dando este passo de deixar a cabeleira crescer, ele tomou uma decisão: “Eu deixei o meu cabelo crescer um pouquinho e passei relaxante” revelou ele e prosseguiu: “As pessoas perguntavam se eu tinha alisado e eu falava que não porque eu tinha vergonha de dizer que o meu cabelo não era daquele jeito.”
Ele contou para a gente que queria muito deixar o seu cabelo crescer. Porém, ele tinha receio de ver um cabelo que ele não gostasse. Além, é claro, de se sentir envergonhado, por isso passava o relaxante.
“Aí, teve um dia em que eu pensei assim: ‘Cara, eu não tenho que passar relaxante, se eu quero ver o meu cabelo como ele é! Não posso passar alguma coisa para interferir nesse processo.” Nesse momento, Vagner decidiu que não passaria mais nenhuma química no cabelo e o deixaria crescer naturalmente.

Cabelo crespo e racismo

Foi-se a época em que homens raspavam a cabeça para esconder o cabelo crespo

“Eu não estava me adaptando ao ver o meu cabelo no espelho. E, as pessoas no trabalho ou algum outro lugar falavam: ‘por que você não passa tal coisa ou seca de tal jeito?’, começavam a palpitar.” Ou seja, além de lidar com tarefa dificílima de desconstruir os medos e inseguranças que a própria sociedade colocou dentro dele por anos. Vagner ainda tinha que conviver com comentários a atitudes racistas: “Era visível que as pessoas se sentiam incomodadas com o MEU cabelo. Chegaram ao ponto de se sentirem no direito de comentar sobre como ELAS gostariam de ver o MEU cabelo.”

Insegurança ao assumir o cabelo natural


O julgamento e a insegurança formam uma combinação bastante perigosa para quem está passando por uma fase delicada na vida. Como assumir suas origens dessa maneira. Foi então que esse combo acabou conseguindo derrubar o Vagner, que desistiu naquele momento. “Eu raspei o meu cabelo de vez e pensei: ‘Não quero mais deixar crescer’ e isso não apenas por causa de mim, de não me reconhecer no espelho, mas porque era muita gente querendo opinar sobre o meu cabelo”, desabafou.
Além disso, ele ainda contou que ele não sabia como mexer ou cuidar dos seus próprios fios. Afinal, era tudo muito novo! Ele nunca tinha feito nada daquilo: “Eu olhava tutorial na internet e até comprei uma esponja uma vez para passar no cabelo e deixar cacheado, mas não deu certo.”
O racismo e o preconceito de uma sociedade inteira derrubaram sim o Vagner. Mas ele não ficou muito tempo no chão e tratou de levantar rapidinho. “Por volta de dois ou três meses depois eu pensei: “Vou dar uma segunda chance para mim”. Como eu já tinha raspado o cabelo, acabou saindo tudo o que eu tinha feito com o relaxante e ele começou a crescer como ele é.”

Como lidar com o racismo


É claro que levantar e resistir não foram tarefas fáceis para o Vagner. Assim como não é para milhares de outros homens e mulheres que passam pela mesma situação. “Foi difícil porque, apesar de ser homem e ter a liberdade para fazer muita coisa, eu sou um homem preto. Apesar de ser gay, eu sou um homem preto. São esperadas muitas coisas do homem preto, como a virilidade, por exemplo.”
Ele explicou que quando alguém começa a romper com esses padrões estipulados, como não deixar o cabelo raspado e passar a ter um cabelo de fato, a pessoa começa a ser vista com outros olhos, e foi o que aconteceu com ele. “Eu recebia olhares de julgamento, críticas, pessoas dizendo que eu ficava melhor de cabelo raspado. Mas eu segui em frente!”

Cabelo crespo e identidade negra

Foi-se a época em que homens raspavam a cabeça para esconder o cabelo crespo

“Eu fui deixando o meu cabelo crescer, aprendendo a lidar com ele, a reconhecê-lo, e também a perceber que nem tudo o que uma pessoa cacheada ou crespa usa vai dar certo para o meu cabelo também”, explicou.
Afinal, cada cabelo é de um jeito e tem suas características particulares. Então é sempre importante lembrar que você não precisa desistir se os produtos que uma pessoa com o cabelo parecido com o seu usa não derem certo com você. Tenha paciência e procure outros produtos, métodos e técnicas que funcionem com as suas madeixas. Não desista!

Como Vagner lida com o seu cabelo atualmente


Vagner destacou que hoje se relaciona muito bem com o seu cabelo. Mas que o processo vai além da questão estética: “Foi muito mais do que assumir o meu cabelo. Foi uma reaproximação de quem eu sou como homem negro, foi descobrir qual o meu papel na sociedade. É colocar o pé nessa sociedade, não como um homem qualquer, mas um homem preto. É muito forte isso, sabe?”.
Ele disse que mesmo bem resolvido com a sua ancestralidade, ainda convive com o racismo diariamente. Vagner nos contou sobre as tranças que fez no cabelo recentemente e como isso impactou no seu ambiente de trabalho. “Algumas pessoas me receberam super bem, mas vi muitos olhares de desaprovação. Elas se sentem no direito de comentar sobre como gostariam de ver o seu cabelo. Isso incomoda muito, então, eu tive que me impor.”

Piadas sobre cabelo


O jovem que hoje exerce uma posição de liderança contou que foi motivo de piada para uma das colegas de trabalho, e que embora tenha a confrontado no momento sobre o comentário, aquilo doeu e muito para ele: “Eu disse que ela tinha que entender que fazer brincadeiras com uma questão que a sociedade reprime e condena não é legal. Falei que isso é ser racista, é corroborar com o preconceito.”
Vagner comentou que mesmo formado, pós-graduado e sendo uma pessoa articulada, o racismo chega sim até você. Nenhuma dessas coisas significa nada quando se trata de preconceito. “Quando você passa por uma situação de racismo você fica acabado, por mais simples que seja. É horrível, você não sabe como reagir.” Para ele, quando se é negro, a cada passo dado, a cada pequena coisa que você faz, como assumir o cabelo ou uma roupa, o peso do racismo cai contra você com toda a força. Não importa quem você seja.

Assumir o cabelo natural


É por isso que, segundo ele, neste processo de assumir o cabelo natural, conquistou muito mais do que o direito de expor os seus fios por aí. Ele redescobriu suas origens, aprendeu a se aceitar, a se respeitar e se impor diante da sociedade. Ao passar por essa fase e resistir, ele recuperou o contato com a sua negritude e a sua identidade. Por este motivo tem orgulho em dizer que assumir o seu cabelo foi um ato político. Assumindo o seu papel como homem negro e crespo na sociedade.
Se você gostou de ouvir a história do Vagner, veja mais sobre preconceito com cabelo, é só clicar! Conta também nos comentários uma situação que aconteceu com você, caso queira compartilhar com a gente. E que tal mandar a matéria para aquele amigo que está pensando em assumir o cabelo crespo, mas ainda está inseguro? Às vezes é o empurrãozinho que falta para ele se sentir mais motivado, não é verdade!?
Para dicas sobre cuidado com cabelo crespo natural também temos uma matéria bem bacana, vale conferir no link!

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